Mensagens do pastor Ruyte

O que estou fazendo aqui? Vivendo ou existindo?


Mais uma vez, um e-mail enviado por minha amiga Cheia de Luz me leva a escrever. A mensagem que ela enviou-me fala da descoberta do nosso papel na vida, nossa missão aqui.

E, devo confessar, por esses tempos em que minha avó foi embora desse mundo, tenho realmente repensado, com muita profundidade, qual é minha missão, o coração da minha existência. A cor verdadeira da principal flor de meu jardim, qual é?

Isto é importantíssimo! Por quê? Porque se eu viver por viver, e nada fazer para caminhar na estrada que me leve a realizar o que devo realizar em termos de missão na vida, acabo existindo, mas não vivendo.

Eu existo quando sou indiferente ao mundo e suas dores. Eu existo quando a dor do próximo não me toca em nada. Eu existo quando acredito que a satisfação dos meus desejos é tudo de bom e maior que devo buscar na vida. Eu existo quando meu Ego é meu guia. Eu existo quando idolatro, e ofereço sacrifícios no altar do meu Ego. E faço isso muitas vezes, porque eu e meu Ego nos damos muito bem, já que ele me engana e eu me deixo ser enganado por ele, especialmente aceitando a ilusão, que ele oferece, de que buscar toda a satisfação que puder irá me conduzir ao caminho da felicidade.

Mas eu vivo quando olho para o mundo como Jesus olhou. Eu vivo quando a dor do próximo é a minha dor também, de modo que eu possa fazer algo para minorá-la. Eu vivo quando busco a satisfação dos desejos de Deus para a minha vida, mesmo a custo de sacrifício pessoal dos meus desejos. Eu vivo quando Jesus é meu guia. E Jesus e meu Ego, normalmente, não se dão muito bem!

Hoje é dia 08 de fevereiro de 2011. Há exatamente dez anos, no dia 08 de fevereiro de 2001, eu colava grau superior em Direito. O meu diploma está numa bela moldura. O diploma de aprovação no exigente Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, também. O que fiz com esses dois diplomas, ou melhor, como os usei (ou deixei de usar) foi, e é, algo justo, bom, positivo e que contribuiu para que o mundo fosse um lugar melhor? Mais do que nunca, hoje, em que completo dez anos como Bacharel na Ciência do Direito, eu me faço essa pergunta com toda a força da alma. E exatamente hoje, minha amiga Cheia de Luz me envia uma mensagem sobre a descoberta do sentido de missão na vida!

Mas o meu caso é ainda mais grave. Não satisfeito, ainda fui atrás do diploma de Bacharel em Teologia! O que tenho feito com esse diploma, também é algo justo e bom diante de Deus?

As reflexões acima são, nesse momento, muito importantes para mim. Na verdade, deveriam ser sempre. Mas, nesse momento, são muito fortes e confrontadoras. Vou vencer o confronto? Só posso vencer se aprimorar o auto-conhecimento e seguir a rota traçada dentro do meu coração, mesmo contra a maré e contra as eventuais opiniões alheias. Caso contrário, acabo perdendo e, ao invés de viver, passo apenas a existir. Mas é seguir o que está em meu coração, olhando para Jesus Cristo. Mesmo que Ele e meu Ego se estranhem sempre, há um ponto, há um lugar santo no coração, em que Jesus destrona o Ego e mostra a Sua vontade para minha vida. É nesse lugar que devo chegar. É lá que a porta deve ser aberta.

Houve um jovem, há muito tempo atrás, que acreditava ter uma missão divina dentro de sua religião judaica. Mas, confrontado por Jesus Cristo na Estrada para Damasco, ele venceu o confronto entre existir ou viver com a pergunta: "Senhor, que queres que eu faça?" A partir daquele momento , ele deixou de existir, e passou a viver! A viver com paixão! Paixão! Paixão! Até o ponto em que ele disse: "Eu não vivo mais, pois Cristo vive em mim!" No lugar santo de seu coração, seu Ego humano foi destronado, e Cristo foi entronizado como Senhor!

Vida sem paixão não é vida. Vida sem paixão é existência. Vida com paixão é vida bem vivida, é vida que dá frutos para a Eternidade, que constrói tesouros que não são destruídos nem roubados, posto que no Céu são depositados!

Não se pode ter a paz com Deus sem viver de verdade, porque Deus é amor, e o amor é a força cósmica mais poderosa do universo. Existir é viver sem amor. Viver é existir com amor. "percamos o amor e nossa Terra será um túmulo", disse o poeta Robert Browning (1812-1889). Paulo, o jovem que acreditava que a Lei Judaica era um fim em si mesma e que defender sua religião era uma missão, quando deixou que seu Ego fosse destronado por Cristo, disse: "O amor é o cumprimento da Lei!"

Que Deus me ajude a descobrir meu próprio caminho, a chegar onde devo e abrir com coragem as portas que devem ser abertas

O pedaço de madeira


Um homem bom, que criou e cuidou de uma família juntamente com sua esposa. Esse homem é religioso, cristão devoto, pratica o amor a Deus e ao próximo. O egoísmo passa longe dele, é generoso, e benfeitor com as pessoas que lhe cruzam o caminho da peregrinação nesse mundo.

Porém, ele é acometido de uma moléstia fatal. A doença o levará à viagem para as Moradas Eternas do Pai das Luzes.

O homem é uma espécie de carpinteiro. Trabalha com a madeira, transformando a matéria bruta em arte que embeleza o mundo. E, como todo bom carpinteiro, ele é detalhista.

Já acamado, sem poder expressar direito suas vontades para os que lhe são caros, ele então tem um sonho. Sonha com um Anjo.

No sonho, trava-se o seguinte diálogo entre ele e o anjo:


"Veio buscar-me agora?", pergunta entristecido o homem.

"Ainda não", diz o Anjo. "Preciso que faças algo."

"Fazer o quê? Estou acamado, mal posso expressar meus pensamentos aos que estão perto de mim..."

"Preciso que escreva poucas palavras. Pegue um pedaço de madeira, e escreva à lápis o seguinte recado: "Quero viver. Deixe-me viver!"

O homem não podia compreender o pedido do Anjo! Parecia-lhe absurdo: por um lado, a certeza da morte e, por outro, o Anjo lhe pede para escrever sua vontade óbvia: viver! E num pedaço de madeira!

"Por que devo fazer isso, se sei que não tenho muito de vida neste mundo?", pergunta o homem.

"Por quê?" Começa a resposta do Anjo.

Você deve escrever isso porque amou e foi amado em sua vida, e isso ocorreu porque sua mãe foi parceira de Deus na criação de sua existência, quando muitos que estão no útero de uma mulher, aguardando a sua chance de viver, são abortados, num assassinato frio e covarde. Suas palavras hão de lembrar às gerações futuras a dádiva que é a vida. O mundo seria melhor se o aborto não existisse.

Você deve escrever isso porque teve trabalho, e amou seu trabalho. Oh!, quantos há que fazem de seu trabalho apenas a maneira de ganhar o dinheiro que precisam, e não colocam nele o amor que você colocou em sua profissão. Com isso, quando o pedaço de madeira for encontrado, as gerações futuras hão de testemunhar que todo trabalho tem sua dignidade, e amar o que se faz também é uma forma de louvar a Deus, posto que Deus amou o mundo de tal maneira que nem a seu Filho poupou para salvá-lo. E o Filho de Deus trabalhava com móveis, como você. Ele amava seu trabalho. O mundo seria um lugar melhor se todos colocassem a energia do amor no seu trabalho.

Você deve escrever isso porque amou sua família. Oh!, quantos há que abandonam filhos e mulheres, em troca de um prazer efêmero que jamais lhes satisfaz. E quantos homens e mulheres há no mundo que destroem casamentos, sem o menor senso de respeito à família, que é criação de Deus. Com isso, quando o pedaço de madeira for encontrado, as gerações futuras hão de saber que o casamento e a família são criações de Deus, e amar a família é uma forma de amar a Deus. O mundo seria um lugar melhor se mais homens como você amassem suas famílias.

Você deve escrever isso porque Jesus Cristo, A Palavra Encarnada de Deus, bateu na porta do seu coração e você a abriu, para que Ele entrasse! Você foi religioso, mas não manipulador. Você foi religioso, mas não opressor. Você foi religioso, mas não julgador. Você foi religioso da maneira de Deus: sendo canal de bênçãos para os outros e praticando a bondade sem esperar retribuição. Com isso, quando o pedaço de madeira for encontrado, as gerações futuras hão de lembrar-se que religião não é barganha com Deus, pois Ele já nos deu tudo; antes, a verdadeira religião é a imersão no amor de Deus, de forma tal que esse amor o leve a amar ao próximo como você ama a você mesmo. Dessa forma, as gerações futuras hão de compreender que há mais de Deus em um ateu que ama do que em um religioso que não ama, porque Deus é amor. O mundo seria um lugar melhor, se as pessoas praticassem mais o amor, especialmente as religiosas.

"Tudo bem", respondeu o homem, com lágrimas nos olhos por ser lembrado de tantas dádivas maravilhosas que Deus lhe tinha dado nessa vida. E continuou:

Mas, por que escrever num pedaço de madeira? Não pode ser um pedaço de papel? Estou com dificuldade para escrever, penso que um pedaço de papel seria mais fácil...

O Anjo sorriu, e respondeu:

"Sim, o pedaço de papel seria mais fácil. Mas Jesus Cristo foi pregado na madeira, e não no papel! Suas palavras, além de remeter à lembrança da gratidão pela vida que teve, hão de ser escritas na madeira, matéria prima de seu trabalho, como forma de demonstração de que você realmente queria as palavras guardadas no coração de alguém, como você guardou o amor pelo seu trabalho e por sua família durante toda a vida! Além disso, o pedaço de madeira servirá como testemunha, não de sua derrota, mas da sua completa vitória ao passar para a vida eterna, a Verdadeira Vida, que foi definitivamente dada de presente à humanidade pelo próprio Deus Encarnado, pregado numa cruz de...

"Madeira!", completou o homem, ainda chorando.

"Sim, uma cruz de madeira. Para o mundo, uma loucura. Para Deus, a reconciliação com a humanidade caída! E o pedaço de madeira, a lembrança de que vale a pena lutar para viver a vida que você viveu!"


O homem, então acorda. Não pede a ninguém lápis e um pedaço de madeira. Não precisa: ele os encontra fácil, à sua disposição, como que esperando para serem usados da forma que o Anjo lhe pedira. Escreve a frase que o Anjo lhe ditou, e não entrega a ninguém. Ele sabia que aquele pedaço de madeira seria encontrado na hora certa, e pela pessoa certa. Passados alguns dias, o homem Volta para a Casa do Pai.

Um dia, vasculhando as coisas de seu falecido marido, a esposa que lhe foi companheira nessa vida, encontra o pedaço de madeira, escrito e guardado anos atrás. As inevitáveis lágrimas caem, na mistura da tristeza com a saudade.

Com o pedaço de madeira na mão, ela senta-se na cama. E começa a pensar na vontade que seu marido tinha de viver.

E a vontade de viver de seu marido, lhe entra no coração, revigora as energias e a faz sentir-se grata a Deus e privilegiada por tê-lo tido como companheiro durante uma vida inteira. Então, ela abre a janela, vê o dia que começa como mais um presente de Deus, e agradece ao Pai:

"Obrigado, Senhor, pela dádiva da vida!"

Depois, ela mostra o pedaço de madeira para a filha, que também chora a saudade do pai querido. A filha o mostra a outra pessoa. E, assim, a história de um simples pedaço de madeira chegou até nós, nos ensinando o que temos a aprender, no tempo certo determinado por Deus: amem a vida, desfrutem a vida, amem ao próximo, vivam para o próximo! Deus é amor, e amar a vida que se tem soa como uma angelical canção aos ouvidos do Pai! Uma canção escrita à lápis, num pedaço de madeira!

A esperança é azul!


O céu azul, sem nuvens, é tão lindo de ser visto. Tão vasto, tão infinito e arrebatador. Talvez, pelo fato de o vermos todos os dias, esquecemos de apreciar sua beleza.

Certo tempo atrás, aventou-se que uma mulher de 122 anos, brasileira, pudesse ser a mais velha do mundo. A televisão foi até ela, fez uma reportagem e lhe perguntaram se tinha um sonho. Ela respondeu sem vacilar: "Conhecer o mar".

Levada, então, para conhecer o mar e realizar seu sonho, ela só pode definir com essas simples mas profundas palavras a imensidão da beleza que vinha de fora e entrava em seu coração: "O mar é azul!"

Sim, o mar é azul. Azul como o céu, que podemos olhar todos os dias.

Nem sempre, contudo, o céu está azul. Nos tempos de chuvas, as nuvens carregadas sinalizam tempestades à vista. Mas, por mais forte que seja a tempestade, ela passa. E, quando ela passa, o céu volta e ficar azul.

Quando olhamos para o céu, além de ficarmos deslumbrados com a imensidão do que não sabemos, podemos deixar nascer dentro de nós uma luz valiosa: a esperança!

Ao olhar para o infinito, diante de nossa finitude, podemos lembrar das palavras de Jesus: " Não vos deixarei órfãos!" E também da promessa: "Estarei convosco, até a consumação dos séculos!"

O Céu, a Casa de Deus, a Morada do Pai das Luzes, é a esperança maior dos que têm Jesus Cristo dentro do coração. É por isso que temos, sempre, que pensar e repensar nossos valores, porque podemos estar desperdiçando tempo lutando, brigando e gastando nossa saúde e inteligência por coisas que não levaremos para a Eternidade. Pode ser que estejamos lutando pelas coisas que vão ficar e apodrecer debaixo de céu que nossos olhos enxergam, ao invés de procurar, encontrar, e distribuir os tesouros que poderemos levar para o Céu que nossos olhos ainda não contemplam em plenitude, mas que é tão real quanto o céu que nos cobre de azul. Azul infinito, que lembra nossa esperança eterna!

Onde está meu coração? Está nas coisas que ficarão debaixo do céu que vejo, ou está nas coisas que levarei comigo, para o Céu que ainda não vejo?

Um beijo no coração, e fiquem em paz com Deus, em nome de Jesus! Amém! Pr. Ruyter



O Jardim do Perdão


"Não sou igual ao meu pai, nunca serei igual a esse monstro!", grita o adolescente, revoltado com o comportamento agressivo e destituído de afeto de seu pai.


"Odeio minha mãe, graças a Deus que jamais serei igual à ela!", vocifera a jovem incomodada com a falta de ação e submissão exagerada da sua mãe.


Certa vez, escrevi para uma jovem que havia engravidado sem se casar que ela estava tentando, inconscientemente, repetir o modelo de sua mãe. Ela ficou revoltada comigo, e depois disse-me que as palavras que lhe escrevi causavam-lhe repugnância!


Demorou muito, mas muito mesmo, para que eu percebesse a razão de comportamentos como os apontados acima. A razão chama-se PROJEÇÃO.


Aspectos psicológicos que não gostamos em nós mesmos, são projetados em outra pessoa. O rapaz que diz "jamais serei igual ao meu pai" está, na verdade, já sendo igual ao pai. A menina que se gaba de ser diferente da mãe está, na verdade, tentando ocultar de si mesma que se parece com a mãe mais do que gostaria de admitir.


Boa parte da minha adolescência eu realmente acreditei na mentira, inventada por mim mesmo, de que eu não teria no comportamento os supostos defeitos do meu pai. O tempo mostrou que não apenas tenhos os supostos defeitos, como consegui ainda criar outros piores!


Freud, pai da Psicanálise e descobridor do inconsciente, disse certa vez: "Quando Pedro fala de João, sei mais de Pedro do que de João", numa clara referência à projeção psicológica.


A projeçãom não é exatamente um pecado, ela é uma condição humana. Uma defesa psíquica, por assim dizer. Compreendê-la e fazer as pazes com ela abre um maravilhoso caminho para que andemos num dos mais belos jardins que Deus criou: o Jardim do Perdão. Perdão a nós mesmos, aceitando o perdão de Deus, e perdão aos outros, especialmente aos pais, pela simples condição de humanos que são.


Podem reparar. De tempos em tempos, pregadores que falam com veemência sobre moralidade sexual, acabam caindo em algum escândalo desse tipo. Pessoas tentam ostentar uma fachada de intelectual para os amigos, mas em casa se comprazem em assistir programas fúteis de tv. A mulher critica em demasia o vício do álcool em alguém, sendo ela mesma viciada em calmantes para dormir. São pessoas projetando nos outros algo que condenam em si mesmas. No fundo, não estão condenando o outro, mas aquilo que enxergam de si mesmos nos outros.


Temos de ter muito cuidado com as afirmações do tipo "você é..." ou "ele é...", e assim por diante. A projeção é sutil e enganadora.


Quando, porém, compreendemos nossa própria sombra, e decidimos olhar com amor ao invés de olhar com julgamento, estamos no caminho certo para sair da dimensão da projeção (que poderia também ser definida como "julgamento de si próprio") e entrar na dimensão do perdão, vivendo uma vida mais inteira, mais plena de aceitação de nós como somos e dos outros como são.


O Verbo Encarnado de Deus, Jesus Cristo, conhecedor da natureza humana, dela participante e , portanto, ciente de nossas dores e mazelas, disse: "Não julgueis para não serdes julgados." As palavras do Mestre têm mais profundidade do que parecem. Na verdade, esta frase de Jesus é um convite a olhar para dentro, fazer as pazes consigo mesmo, e aceitar as pessoas como são, ao invés de condená-las e, na maioria das vezes, uma condenação que contém muitos elementos que não gostamos em nós mesmos. Em outras palavras, usamos os outros para nos condenar!


Faça as pazes com você mesmo, deixe Deus sondar seu coração e caminhe, de forma suave, pelo iluminado Jardim do Perdão!


Os tempos de Deus e o meu tempo


Os segundos. Os minutos. As horas. Os dias. Os meses. Os anos. E eu no meio deles.


De vez em quando, sempre é bom parar para pensar um pouco sobre minha relação com o tempo. Por que isso é importante?


Porque o tempo, da perspectiva humana, vai passar, quer eu queira, quer não. Quer eu estude ou não estude, o tempo vai correr. Quer eu faça, ou não faça algo, o tempo não há de esperar por mim.


Para se ter uma boa dimensão da passagem do tempo, nada como fotografias antigas comparadas às de hoje. Ou, melhor ainda, o encontro com um adolescente de dezoito anos que você viu pela última vez em seu aniversário de nove anos. Nove anos parece um bocado de tempo, mas depois que nove anos se passam, parece que foi pouquíssimo tempo. E aquele menino ou menina de nove anos, com gesticulação e fala ainda infantil, um pouquinho talvez de inocência e pureza, transforma-se numa moça ou rapaz de fala e corpo diferentes. Num encontro como esse, impossível não refletir sobre o tempo, especialmente sobre a passagem dele.


A Palavra de Deus, em Eclesiastes 3.1, diz que "há um tempo certo para todo propósito debaixo do céu"


Claro que a Bíblia está falando da perspectiva divina. Não podemos usar as palavras acima como desculpa para a passividade. Se temos um problema, o tempo de se tentar resolver o problema é agora! Um doente não deve esperar o tempo certo para procurar um médico, pois o tempo certo é hoje! Usar a Bíblia para justificar nossa falta de iniciativa e passividade é uma ação insensata.


Contudo, olhando da perspectiva divina, tentando entender minha relação com o mundo sob o prisma do tempo de Deus, chego a algumas conclusões.


Uma delas é que, muito mais do que eu gostaria de admitir, Deus não deu-me o que eu queria, quando eu queria, porque atender ao meu clamor me causaria mais dor do que alegria. Deus, o Onisciente Pai das Luzes, negou-me muitos pedidos por pura misericórdia. Passou o tempo, percebi que Deus tinha (como sempre tem) razão em não atender meu pedido naquela ocasião, e então restava-me apenas agradecer ao Senhor Criador a misericórdia de mais um livramento. E eu ainda murmurava, feito criança birrenta, porque não tinha o pedido atendido.


Outra conclusão a que cheguei é a de que, algumas vezes, tentei antecipar-me ao tempo, "pegando na marra" algo que Deus havia reservado para mim num momento futuro e mais oportuno, quando eu estivesse mais preparado. Como um adolescente de 15 anos que sabe dirigir, mas sabe também que não é a hora, pois ele ainda não tem discernimento e maturidade para responsabilizar-se por uma ação tão séria. Eu, feito o adolescente, passei na frente do tempo algumas vezes e, como era de se prever, os "carros" que dirigi antes da hora viraram sucata! Aí, foi triste ver que, num tempo futuro, eu seria por Deus abençoado, mas perdi aquela bênção por teimosia em passar na frente do tempo de Deus. Coloquei a carroça na frente dos bois, e os bois (mais inteligentes do que eu) correram no sentido oposto da carroça. A mim, restou sentar-me em cima da carroça, e ficar com a cara parecida com a do irmão da Jumenta da Balaão! E irmão de jumenta, jumentinho é!


Por que agi assim, tantas vezes? Impulsividade pode ser uma explicação, algumas vezes. Outras, teimosia. Falta de vigilância e oração, também. Este último detalhe, a falta de uma vida mais devocional, em que ouço mais a voz de Deus, me parece a melhor explicação para a maioria dos casos em que tentei enganar o tempo.


A melhor relação que podemos ter com o tempo está nas palavras do Verbo Encarnado de Deus, Jesus Cristo: "Não andeis ansiosos de coisa alguma, vosso Pai sabe do que precisais."Trocando em miúdos: uma relação com a vida baseada na fé em Deus, colocando os tempos da nossa existência nas mãos Dele. Mais uma vez, isso é sabedoria divina, e não convite à passividade e letargia!


Tem um sonho a realizar e crê em Deus para seguir em frente? Mãos à obra, desde já! Mas sem que a ansiedade, a teimosia, a impulsividade ou a falta de diálogo com Deus lhe façam ficar, como tantas vezes eu fiquei, com cara de jumento!


Recebi agora à tarde um excelente exemplo de uma relação com o tempo baseada na fé em Deus.


A mãe de Moisés viveu no tempo em que o rei do Egito mandava matar os meninos recém nascidos, e poupar as meninas, com o sórdido objetivo de deter o crescimento do povo hebreu. Nascido Moisés, sua mãe o escondeu durante o tempo que conseguiu (quer dizer, fez o que estava a seu alcance durante o tempo que foi possível). Não sendo mais possível, sua mãe o coloca num cesto e o deixa nas margens do rio. Encontrado pela filha de faraó, Moisés é enviado de volta à sua mãe, para que ela o amamentasse e criasse. No futuro, Moisés seria o libertador do povo hebreu e um dos maiores profetas que já existiu. Tudo porque sua mãe teve uma relação certa com o tempo: enquanto pôde, fez o que estava a seu alcance. Quando não era mais possível, entregou o destino do menino a Deus. Ela foi sábia na relação com o tempo, no que dizia respeito à vida de Moisés.


Na vida, uma boa relação com o tempo começa quando compreendemos que o caminho é mais importante que o destino. Dito de outra forma: a maneira como vivemos é mais importante do que as eventuais conquistas que possamos auferir. "É caminhando que se faz o caminho", já disse o poeta. E jamais quero esquecer: desse mundo, nada levaremos, mas podemos aqui deixar bastante amor e saudade nos corações que cruzarem nossos caminhos. E para o céu, só levaremos o amor que aqui cultivamos. Plantar amor, colher amor, e amor levar. Pensando assim, fica melhor decidir o que fazer com o meu tempo, que é dádiva de Deus. Os segundos. Os minutos. As horas. Os dias. Os meses. Os anos. Eu no meio deles, e sobre mim a mão de Deus, pois com Deus, qualquer tempo é tempo de perdoar e amar!


A Super Hiper Mega Espiritualizadíssima Cheia de Sombras!


Às vezes, e muitas vezes, não é realmente gostoso olhar para dentro de nós. Uma viagem ao nosso ego pode se parecer mais com uma temporada de um soldado solitário no Afeganistão do que com uma semana de um casal em lua-de-mel na paradisíaca Fernando de Noronha.


Temos, dentro de nós, regras hipócritas que, na verdade, não conseguimos cumprir nunca. Por mais que tentemos, nossa língua continua afiada, nossas intenções nem sempre são as melhores, nossos pensamentos nem sempre revestem-se de santidade. Nós somos criaturas que vagamos, nesta existência, por um vale de sombras dentro de nós, e não adianta lutar contra essa sombra. Adianta, sim, reconhecê-la e deixar a luz de Deus iluminar a sombra, trazendo claridade e beleza ao nosso ser. Dentro de um quarto escuro, a única saída é acender a luz, ao invés de maldizer a escuridão.


O problema de nós, religiosos, é que não reconhecemos que todos nós estamos no mesmo balaio de gatos, no mesmo saco de farinha, navegando no mesmo barco. Enfim, todos nós, religiosos e não religiosos, somos pecadores, na medida em que o alvo de nossa existência perde o foco vertical (Deus) e horizontal (o próximo).


E no meio religioso, as piores pessoas que podemos encontrar são as que fazem mau uso da religião. Como nos tempos de Jesus, ainda é hoje.


Para uma prostituta, Jesus ofereceu reconciliação com Deus e perdão para seu coração ferido. Para os falsos religiosos, Jesus reservou seu discurso mais duro, chamando-os de "raça de víboras" e "sepulcros caiados" (um sepulcro bonito por fora, mas cheio de ossos podres por dentro).


Pensando no quadro acima, ou seja, a nossa natureza ambígua e ambivalente, cheia de sombras, e o mau uso que algumas pessoas fazem da religião, quando não sabem lidar com sua própria sombra, criei uma personagem baseado em muitas figuras que encontrei por aí, nas igrejas da vida pelas quais passei. É uma vilã disfarçada de heroína. Eu a batizo de a Super Hiper Mega Espiritualizadíssima Cheia de Sombras! É uma versão feminina do fariseu (o falso religioso) dos tempos de Jesus. Portanto, a Super Hiper Mega Espiritualizadíssima Cheia de Sombras é uma fariséia!


Como o nome ficou muito longo, vou abreviá-lo e chamá-la de SUHIMECHESO. Lindo nome, não acham?


A SUHIMECHESO acha que não solta pum. Como seu interior é altamente espiritualizado, ela pensa que emite fragrâncias deliciosas que mais se parecem com sopros de anjos!


A SUHIMECHESO pensa que não será santa, pois ela já é santa! Mesmo sendo evangélica, ela vai pedir ao Papa a sua canonização. De preferência, enquanto estiver viva, para poder apreciar a bela cerimônia em sua homenagem, feita pelo Sumo Pontífice. Se o Papa recusar-se, a SUHIMECHESO sairá por aí dizendo que a igreja dele não presta.


Aliás, para a SUHIMECHESO nenhuma igreja presta, a não ser a dela. Todas as outras são seitas demoníacas. A igreja dela é a única na qual você encontra a chave do portão do céu. E digo igreja dela mesmo, literalmente, porque onde ela está, ela pensa ser dona do pedaço, poderosa, absoluta e necessária!


A SUHIMECHESO pensa ter na vida a infeliz missão de apontar todos os pecados alheios de todos à sua volta, inclusive e principalmente o povo de sua igreja, pois ela acredita que a luz do outro deve estar apagada para que a dela brilhe.


A SUHIMECHESO não ingere bebidas alcoólicas, pois isto seria um ato de desonra à sua santidade. Não. Ela apenas se entope de calmantes para dormir à noite e antidepressivos para suportar o dia. Mas, claro, diz para todos que é super feliz, que seu casamento vai bem, e não há nenhum problema com ela, nem poderia haver, pois ela foi "escolhida, selada, predestinada" para as Altas Coisas Espirituais desde antes da fundação do mundo.


A SUHIMECHESO não crê em reencarnação. Mas, de vez em quando, ela fica triste com isto, pois se acreditasse na reencarnação poderia sair por aí dizendo que foi a garçonete da Santa Ceia!


Eu conheci várias pessoas como a SUHIMECHESO, e passei maus bocados nas mãos de tais sumidades! O mais triste, contudo, é reconhecer a presença da SUHIMECHESO dentro de mim mesmo. Sim, ela vive dentro de mim também! Mas, quando ela aparece, quase no mesmo instante vem a voz do Espírito Santo e me assopra nos ouvidos as palavras do Divino Mestre, o verdadeiro antibiótico contra a bactéria sutil da SUHIMECHESO: "Não julgueis para não serdes julgados, porque com o mesmo critério com que medirdes, vos hão de medir a vós!"


É difícil, mas não é impossível, viver uma religião libertadora e iluminada. Quando o espírito da SUHIMECHESO aparecer dentro de você, como aparece dentro de mim, lembre-se das palavras de Jesus Cristo, olhe para dentro e, de dentro para fora, a luz Dele vai iluminar as sombras, dissipando as nuvens da SUHIMECHESO de dentro de você.


Oh, Jesus, alguém já vos disse isto antes: "Divino Mestre, tendo eu estado tanto tempo na companhia de religiosos, percebo porque o Senhor prefiria a companhia dos pecadores!"


Rito de passagem


Esta semana fui à formatura de faculade de um primo. Não consegui chegar a tempo de assistir à colação de grau, então tive de me contentar só com a festa.


Mas eu queria mesmo era ter ido à colação de grau, pois amo as cerimônias, especialmente as que se celebram os ritos de passagem, como a colação de grau.


Rito de passagem é uma espécie de cerimônia em que celebra-se o fim de um caminho e o começo de outro. O povo de Israel, por exemplo, tem o Bar-Mitzvhá para os meninos que completam treze anos. Na sinagoga, o menino lê trechos da Torá ( o Antigo Testamento da nossa Bíblia), em uma cerimônia na qual ele, por assim dizer, deixa a infância e começa a entrar no mundo adulto.


O mesmo acontece aqui no Brasil, para as meninas, com a conhecida festa de 15 anos. Para as meninas, é uma celebração do começo da sua entrada na vida adulta.


Tanto no Bar-Mitzvhá quanto na Festa de 15 anos, celebra-se um fim e um começo. O fim da infância e o começo da vida adulta. O luto pela perda da infância, compensado pela porta aberta de um novo mundo.


Os ritos de passagem nos legam o precioso ensino de que, na vida, sempre perdemos algo para ganhar algo melhor. Se ficarmos presos ao status quo, ou presos ao passado, não caminhamos em direção ao futuro. Temos, obrigatoriamente, que deixar para trás muitas coisas para auferirmos novos conhecimentos e vivências em caminhos diferentes.


No caso do meu primo, a colação de grau serve como rito de passagem da fase de estudante para a de prosissional. Deixa de ser discípulo, passa a integrar o rol dos mestres e, se antes ele fazia as perguntas, agora ele deve dar as respostas. Seria confortável ficar sempre como estudante e sempre fazendo perguntas, sem a responsabilidade de respondê-las. Mas isto não lhe traria o crescimento que a vida lhe pede.


Ainda assim, o verdadeiro mestre sabe que será sempre um discípulo, na medida em que compreende que sempre terá algo de valioso a aprender com qualquer experiência que a vida lhe traga.


O batismo evangélico por imersão (mergulho) na água também é um rito de passagem e iniciação. O mergulho na água simboliza a morte, em nós, do poder do erro (pecado). Além disso, há uma analogia entre o mergulho na água e a morte de Jesus Cristo. Ele morreu na Cruz. Ao mergulharmos, tomamos parte em sua morte, e declaramos que queremos a morte de tudo o que é ruim em nós.


Ao levantar do mergulho, o discípulo, simbolicamente, toma parte na Ressurreição de Jesus Cristo. Quando mergulhou, simbolicamente morreu para o poder do mal. Agora, ao levantar, é a vida que é celebrada. Não a mesma vida, mas uma nova. A cosmovisão do discípulo, antes, era egocêntrica (centrado no seu ego). Agora, ao subir das águas, sua cosmovisão revive, não de forma egocêntrica, mas teocêntrica (centrada em Deus).


Os ritos de passagem, na vida, são muitos. Desde a formatura de uma turma de pré-escola à defesa de uma tese de doutorado, passando pelo às vezes exagerado trote das faculdades, os ritos de passagem celebram a morte e a vida. A morte de um caminho velho e a vida de um caminho novo.


Tenhamos muitos ou poucos ritos de passagem, o importante é saber que nosso caminho pode ser sempre novo, todos os dias, todas as manhãs, sem nenhuma exceção. Já citei essa frase do poeta Thiago de Mello, mas devo fazê-lo outras enésimas vezes: "Não tenho caminho novo. O que trago de novo é o jeito de caminhar."


O seu caminho é sempre renovado quando você compreende que encontra a presença divina dentro de você. Jesus Cristo, o Verbo Ecarnado, disse: "O Reino de Deus está dentro de vós".


Se sua vida tem sido uma rocha, peça a Deus que quebre essa rocha ao meio. Para isto, não precisa de um rito de passagem. E não tenha medo, pois só o que está rachado pode ser penetrado pela luz!